Review The Last of Us Parte 2: enredo tropeça, mas gameplay compensa

Jogo exclusivo do PS4 tem problemas de ritmo na narrativa, mas traz jogabilidade fluida e gráficos de tirar o fôlego.

Murilo TunholiEditor(a)

Publicado e atualizado 9 min. de leitura.

The Last of Us Parte 2, que teve o lançamento no dia 19 de junho de 2020, é o jogo mais recente do estúdio Naughty Dog com exclusividade para o Playstation 4 (PS4). Cinco anos após os eventos que resultaram no surgimento dos infectados nos Estados Unidos por conta de uma pandemia, Ellie retorna como a protagonista em um enredo de vingança ao lado da personagem nova Abby.

Diferente do primeiro título, em que Joel era apenas um sobrevivente no mundo pós apocalíptico, dessa vez Ellie e Abby vivem, cada uma, narrativas únicas e profundas, mas com problemas de ritmo. Nos quesitos gameplay e gráficos, contudo, é onde TLOU 2 brilha e justifica o posto de jogo mais vendido no mês do lançamento. Na review, a seguir, você confere a análise completa com spoilers e a nossa opinião sobre game.

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Um enredo sobre vingança

A segunda parte de The Last of Us não tenta agradar os fãs do primeiro jogo, e isso fica evidente logo nas primeiras horas do game. Antes, éramos vítimas da pandemia buscando por sobrevivência em um lugar seguro. Agora, invadimos o território dos infectados por vontade própria para cumprir uma missão de vingança.

O enredo é dividido em duas partes: na primeira metade do jogo nós controlamos Ellie, que mesmo mais velha ainda tem os problemas de uma adolescente normal. Ela se apaixona, tem o coração partido, é revoltada e não gosta de seguir regras. Já a segunda parte é protagonizada por Abby, uma mulher mais madura que teve corpo e mente forjados em tempos onde somente os mais fortes sobrevivem. Isso fez com que ela se tornasse mais resistente tanto física quanto emocionalmente.

Ellie ainda é uma adolescente com personalidade forte em The Last of Us Parte 2. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)
Ellie ainda é uma adolescente com personalidade forte em The Last of Us Parte 2. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)

A escolha de dividir a história em duas protagonistas completamente diferentes é interessante, na teoria, mas tornou o jogo bastante cansativo. Somente a parte da Ellie dura, no mínimo, cerca de 15 horas, e não é um enredo fácil de digerir.

A quantidade exagerada de violência gráfica aliada às decisões influenciadas pelo psicológico abalado da personagem podem causar certo desconforto. Para aliviar a tensão, a exploração entre os objetivos é bastante tranquila, com encontros de inimigos que podem ser pulados facilmente e momentos mais calmos de diálogo.

Quando finalmente encontramos Abby após toda a exaustão da primeira parte, o jogo nos transporta ao passado para tentar entender quem é aquela mulher, de onde ela veio e quais são as motivações dela. O problema aqui é que mais 15 horas de jogo são necessárias para começar a ter as respostas para essas questões.

Abby é uma das protagonistas em The Last of Us Parte 2. (Foto: Divulgação/Sony)
Abby é uma das protagonistas em The Last of Us Parte 2. (Foto: Divulgação/Sony)

A campanha da Abby, contudo, traz algumas novidades que são bastante positivas e deixam a experiência menos maçante. A principal adição é a seita religiosa dos Serafitas, ou “Cicatrizes”, inimigos mortais dos Lobos, grupo que Abby faz parte. O povo com costumes primitivos é apresentado como uma ameaça desconhecida e renova o conceito de perigo em The Last of Us Parte 2.

O grupo ainda ajuda a introduzir ao enredo o jovem serafita Lev, que rapidamente se torna um dos personagens mais carismáticos e bem construídos do jogo. Ao lado da irmã Yara, as crianças tentam se distanciar da seita por não concordarem com as tradições do próprio povo. Durante a jornada, os dois salvam a vida de Abby, que passa a protegê-los até o final.

Lev é um dos melhores personagens em The Last of Us Parte 2. (Foto: Divulgação/Sony)
Lev é um dos melhores personagens em The Last of Us Parte 2. (Foto: Divulgação/Sony)

Além de ter os próprios objetivos e motivações, Lev desenvolve a personagem de Abby que, até então, era bastante sem sal, já que parecia não ter fraquezas. Quanto mais os dois se aproximam, maior é a vulnerabilidade mostrada pela protagonista. A relação entre os dois lembra a de Joel e Ellie no primeiro jogo, que também adiciona o elemento do saudosismo à fórmula.

A conclusão reúne as protagonistas novamente, mas parece que ignora boa parte do aprendizado que cada uma teve nas jornadas individuais. Aqui, encontramos uma Ellie sem personalidade tomada pela vingança com o objetivo de curar as feridas do passado e uma Abby que busca uma forma de recomeçar a vida em um novo caminho.

Não é possível saber quem estava certo ou errado no final das contas. O enredo de The Last of Us Parte 2 traz uma reflexão sobre as consequências da vingança, e mostra como esse sentimento traz apenas destruição e dor, independente da motivação.

Jogabilidade fluida com comandos precisos

As diferenças entre as personalidades de Ellie e Abby também afetam a jogabilidade com cada personagem. Enquanto Ellie tem mais vantagem em combates furtivos com sua faca e arco e flecha, Abby pode carregar armas mais pesadas, como um rifle automático e um lança chamas. Mas, calma, pois isso não significa estar limitado a somente um estilo de jogo. É possível escolher diferentes caminhos na árvore de habilidades e jogar de outras formas.

A jogabilidade é um dos pontos mais fortes em The Last of Us Parte 2. O controle da câmera não é perfeito e pode atrapalhar em algumas horas, principalmente durante a exploração, mas isso é compensado quando você encontra inimigos, já que é necessário manter a visão focada em pontos fixos.

O level design recebeu melhorias bastante significativas em relação ao título anterior. No primeiro jogo, era incômodo chegar em um cenário novo e ver obstáculos espalhados e zonas de cobertura pelo local de forma padronizada no melhor estilo “arena de chefe”. Era quase sempre óbvio saber onde aconteceria uma luta e se ela seria furtiva ou mais mano a mano.

A jogabilidade é um dos pontos fortes em The Last of Us Parte 2. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)
A jogabilidade é um dos pontos fortes em The Last of Us Parte 2. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)

Em TLOU 2, a Naughty Dog mesclou bem os pontos de conflito de forma mais suave em relação ao resto do ambiente. Por conta disso, posso dizer que levei vários sustos por não perceber que havia inimigos por perto, principalmente os cachorros e Espreitadores (Stalkers), que são infectados mais silenciosos.

O catálogo de armas para cada uma das personagens também deixa tudo mais divertido. Por mais que eu prefira jogar furtivamente, a gameplay da Abby foi o que me segurou na segunda metade do enredo. A personagem tem bastante vantagem no combate corpo a corpo, e não há nada melhor que esmagar a cabeça de um Estalador (Clicker) contra a parede. Além disso, lutar contra inimigos mais parrudos como os Trôpegos (Shamblers) e os Baiacus (Bloaters) é muito mais fácil com a ajuda do lança-chamas. Só é preciso ter cuidado para não se queimar no processo (sim, isso aconteceu comigo algumas vezes).

Gráficos e trilha sonora de tirar o fôlego

Assim como a jogabilidade, os gráficos e a trilha sonora são um show à parte. Mesmo no Playstation 4 (PS4) Slim, o jogo é um dos mais belos de toda a geração. Todos os elementos gráficos agem em conjunto para deixar a imersão no mundo pós apocalíptico ainda mais completa, seja em ambientes mais abertos ou em corredores estreitos iluminados por lâmpadas vermelhas de segurança.

Os gráficos de The Last of Us Parte 2 são de tirar o fôlego. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)
Os gráficos de The Last of Us Parte 2 são de tirar o fôlego. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)

A captura de movimentos também é de alta qualidade, principalmente na região do rosto. Isso ajuda, e muito, a transmitir sentimentos durante a atuação dos profissionais que dão vida aos personagens. As expressões na hora que uma das protagonistas morre, por exemplo, fazem com que tenhamos muito mais cuidado ao encontrar um infectado.

A mistura de uma trilha sonora envolvente com interpretações de clássicos da música popular, como “Take On Me”, da banda A-Ha, garante uma excelente experiência no quesito som. Além disso, o trabalho de captação de áudio para o ambiente é de alta qualidade e ajuda a criar toda a atmosfera de suspense durante o game.

Problemas de ritmo e decisões narrativas duvidosas

Como dito anteriormente, o jogo é cansativo. Pode não ser uma história muito longa quando comparada a RPGs com mais de 100 horas de duração, mas os acontecimentos em The Last of Us Parte 2 deixam qualquer um exausto. Isso piora ainda mais quando é preciso passar por uma área explorável muito longa entre dois objetivos importantes da história.

The Last of Us Parte 2 é um jogo cansativo. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)
The Last of Us Parte 2 é um jogo cansativo. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)

É normal presenciar a seguinte situação: você está em um momento tenso do enredo e precisa chegar a um outro ponto da cidade de Seattle para saber finalmente o que vai acontecer. Isso cria um clímax que rapidamente some quando você precisa parar para explorar lojas destruídas atrás de itens, munição e melhorias para as armas. Na teoria, você pode correr até o destino e deixar tudo para trás, mas isso significa sacrificar possíveis habilidades e recursos no próximo confronto.

Quando um jogo promete ser uma experiência cinematográfica sem possibilidade de escolhas, é preciso manter o ritmo constante entre os acontecimentos, principalmente quando a distância entre dois pontos de interesse é muito grande.

Algumas decisões narrativas em The Last of Us Parte 2 podem ser confusas. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)
Algumas decisões narrativas em The Last of Us Parte 2 podem ser confusas. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)

Não é estranho perceber decisões no mínimo duvidosas por parte do roteiro. Entendo que o objetivo é fazer com que os jogadores se conectem de forma única com os personagens, mas é estranho quando, para isso, uma médica grávida é equipada com um rifle e precisa andar na caçamba de uma caminhonete para eliminar infectados. Vale lembrar que médicos também são muito valiosos em um mundo onde pessoas se machucam a todo momento.

Por mais que a história de The Last of Us Parte 2 tenha começo, meio e fim bem delimitados, há diversos obstáculos no meio do caminho que podem arruinar a experiência para algumas pessoas. Em uma visão geral, contudo, o game permite que cada jogador tenha uma visão diferente dos acontecimento. Afinal, até hoje não há um consenso sobre quem é o verdadeiro vilão ou se realmente há algum.

Acessibilidade, New Game+ e modo multiplayer

Voltando aos aspectos técnicos, The Last of Us Parte 2 ganha vários pontos ao disponibilizar diversas opções de acessibilidade para pessoas com deficiências visuais, auditivas e motoras. A Naughty Dog fez um trabalho excelente e criou um menu com configurações que vão desde alertas sonoros a controles de inteligência artificial. É sempre positivo quando mais pessoas aproveitam um jogo.

Outra boa notícia é a reformulação completa do New Game+, que é liberado após zerar o jogo pela primeira vez. Agora, diferente do primeiro título, é possível refazer um encontro específico com todas as armas e melhorias que foram desbloqueadas, sem a necessidade de passar pela história desde o começo.

O modo multiplayer, no entanto, ficou de fora na versão do jogo para o PS4. No primeiro The Last of Us, as partidas com vários jogadores eram divertidas e garantiam a sobrevida do jogo mesmo após anos do lançamento. Vale aguardar a edição do Playstation 5 (PS5) para desafiar outros jogadores online.

Conclusão

Por mais que tenha alguns problemas de narrativa, principalmente em relação ao ritmo dos acontecimentos, The Last of Us Parte 2 é um jogo ousado que foge dos padrões estabelecidos na indústria dos videogames. O título não procura agradar a todos e traz uma experiência diferente, mas muito bem vinda.

Os pontos fortes ficam por conta da jogabilidade, dos gráficos e da trilha sonora, que mostram como esses elementos trabalham juntos para entregar um jogo imersivo com combates fluidos e diversas opções de gameplay, seja furtivo ou brutal. O visual do game prova como um console pode brilhar mesmo no último ano da geração. Vale lembrar que uma versão para Playstation 5 está em desenvolvimento, mas sem data de lançamento confirmada.

Se você procura por um jogo relaxante para passar o tempo, não deve nem ter chegado ao final desse texto. The Last of Us Parte 2 é um jogo que demanda energia e estômago, já que não é incomum ver sangue, tripas e órgãos à mostra. Como conjunto da obra, o game é uma experiência cinematográfica completa que, mesmo com alguns buracos na estrada, ainda é uma jornada emocionante.

The Last of Us Parte 2 tem alguns buracos na estrada, mas ainda é uma jornada emocionante. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)
The Last of Us Parte 2 tem alguns buracos na estrada, mas ainda é uma jornada emocionante. (Foto: Murilo Tunholi/Zoom)

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